sábado, 2 de março de 2013





Alquimia

“Em rápidos flashes vieram ao mundo as faces inebriantes das amadas e das ingratas mulheres da minha vida.”

Esguia
 

madalena



Maledicência






Naquelas carnes entreguei-me como um cão, a arder dentes e olhos. Depois perdi esses dentes e ceguei-me. Hoje sem a arte de roer, e de óculos de lentes graduais, não tenho ideia de como vivo. Trágico-morto. Esclareço: Madalena chegou como a chuva de verão nordestino, sem avisar. Pelo vidro do copo de cerveja, vi entrar no bar a medonha. Considero não ter visto olhos, nem cabelos, nem pernas, mas peitos, muitos peitos. Como bezerro desmamado, a mungir como bicho temeroso da morte, Madalena veio a perceber. Sorriu a desgraçada. Não sei o que ela viu em mim, pois nada tenho de especial.  Talvez o fato de olhar feito cachorro quizilento. Chamo atenção é bem verdade. Mais pela feiúra do que me resta de brilho. Madalena ficou a espreita, de olhos em mim, ou de peitos em mim? Embriagado pela espuma da cerveja, não me atrevi. Eustáquio, velho amigo de guerra, prestou atenção nesse impasse. “Não me venha dizer que vai perder.” Era melhor ter perdido, ou apostado na existência do diabo. Vi-me dançando com Madalena. Embriaguez dupla. Não me atentei pelo fato. Nenhum bêbado sabe dizê-lo, nunca tem ideias próprias, sequer pernas. Madalena sabia o que fazia. Enlaçou-me com pernas e peitos. Botou-me mandinga. Chegou a encruzilhar galinha preta e vela de sete dias. Isso depois de algum tempo. Digo mais tarde, em outra oportunidade.
Madalena como égua no cio veio. Trocamos copos de cerveja, salivas e poucas palavras. Não chamei, não foi preciso. O olhar falou tudo. Madalena, durante a noite e a madrugada não falou dezenas de palavras, apenas olhava e ria. Não puxei conversa pordemais. Lembro ter dito entre uma música e outra: “vamos dançar?”. Por isso, pernas e peitos agarraram-me. Houve tempo de inércia. Não sabia a fazer. Madalena sabia. Rodopiou-me pelo salão aos risos. Soltou-me no meio da madrugada. Desapareceu quando um homem de grossos bigodes surgiu. Lembro-me do braço de Madalena a fugir na mão direita do homem.
Desde esse tempo o bar era minha segunda casa. Nunca mais vi a medonha. O meu amigo Eustáquio uma noite me falou: “Não me venha dizer que vai perder”. Parecia um disco arranhado. Tinha perdido a danada da mulher, de seios fartos, de olhos graúdos, de cabelos alourados. Vim a memorizar seus traços tempos depois. A memória foi-me amiga. Trouxe a noite inteira nos meus braços a dançarina inquieta. Na hora não me atentei.
Certa noite, no bar quase às escuras, e entre os mesmos copos de cerveja, uma mulher entrou. Carregava consigo um sujeito, e não sei por que, não reparei bem na mulher, e ambos se aproximavam da minha mesa. O cara deixou a mulher para trás, cercou-me como quem queria tirar-me para dançar. Pediu para levantar-me. Obedeci, intrigado, e em seguida entre os olhos a dor de um soco. Se o bar estava às escuras, o mundo entrou em blackout. Antes do soco ser desferido, o tal negro disse em tom de escárnio: “Namorar minha mulher é pedir para morrer”. “Maledicência!”. Foi a única palavra que me veio à boca e aos poucos sentidos.
 


(Este é o primeiro capítulo de 04 tomos em que a história se vereda pelas quatro mulheres na vida da personagem em primeia pessoa. Será o novo romance que ainda está por acabar e espero lançar ainda este ano 2013) 

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

CARONA




Em mais uma das minhas viagens e de tantas caronas que tenho a me submeter ou a precisar, para ser mais claro, a de hoje me fixou na mente.
O carro parou. Entrei. Boa tarde a todos. Eram três; o motorista, a senhora ao lado e uma moça atrás, e depois, eu.
O carro arrancou, partiu, por uma estrada velha conhecida. Dentro um calor abafado, mesmo com as janelas abertas. Ainda um silêncio quase sepulcral entre os viajantes. O motorista de cenho fechado, de olhar fixo na estrada e sequer para os lados olhava. Decerto porque a paisagem não o interessava, principalmente nesta época do ano: cinzenta pela seca. A mulher da frente, cabeceava de sono, a cabeça atirada para um lado, sacolejava ora para a direita, ora para a esquerda, conforme traçados das curvas. Muitas curvas. A moça, atrás, ao meu lado pestanejava, fingia dormir, não se dava por mim.
Se dentro o vento que invadia era quente e irritante, lá fora o sol fustigava, fervia, queimava paisagem: árvores, pedras, seres vivos.
Vez por outra esquecia o lado de dentro, para olhar o de fora com um gosto seco nos lábios. Realmente, lá fora a cor apagada, o rasgo do céu numa luminosidade de doer os olhos, os galhos secos que se tocavam condolentes, era de doer.
O asfalto por onde o carro corria, maltratado por sinal, fazia-o pular e de se ver, pela lassidão dos meus olhos, ondas de água a fervilhar nas subidas e retas: pura hipnose de que adiante íamos desembocar num veio d’água para se refrescar.
Novamente, dentro de veículo, olhei para os três: o motorista nada falava, ninguém falava, onde todos sabiam que paisagem, sol, galhos secos, pedras, tudo fazia parte daquele cenário comum e besta. Falar o que? O ronco do veículo era mais alto; o sobiar do vento quente impedia qualquer diálogo. Olhei de soslaio para a moça. Os olhos semicerrados por trás dos óculos de fundo de garrafa. Os lábios carnudos, mal pintados de uma cor apagada. Semelhante o tempo lá fora: apagado e sem quase vida. A mulher ainda cabeceava, indiferente aos lados. O tempo pedia par isso, a idade também ou o cansaço mais ainda.
Vinte quilômetros eram o fim, e nesse tempo todo, uma sílaba sequer foi pronunciada. Quando o veículo chegou na bifurcação, eu quis que o tempo parasse, o veículo também, para que pudesse escolher. Mas quem precisa de carona, não tem como escolher. Mas semanalmente eu penso nisso, sempre pensei, porque a decisão do motorista de tomar a estrada da esquerda era a certa. Ficava mais perto para mim, principalmente nesse tempo de sequidão, de sol escaldante. Ele foi pela certa. Viva. Não pronunciei, claro, porque o silêncio não permitia. Somente o vento quente, o sol escaldante e a paisagem cinzenta: esses eram os protagonistas de uma cena enfadonha, mas necessário por demais. 

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

"EU ACABAREI POIS ME ENTREGUEI SEM ARTE A QUEM ME SABERÁ PERDER E ACABAR"





















.Cuando me paro a contemplar mi estado
y a ver los pasos por do m'han traído,
hallo, según por do anduve perdido,
que a mayor mal pudiera haber llegado;

....mas cuando del camino estó olvidado,
a tanto mal no sé por do he venido;
sé que me acabo, y más he yo sentido
ver acabar conmigo mi cuidado.

....Yo acabaré, que me entregué sin arte

a quien sabrá perderme y acabarme
si ella quisiere, y aun sabrá querello;


....que pues mi voluntad puede matarme,
la suya, que no es tanto de mi parte,
pudiendo, ¿qué hará sino hacello?


(Garcilaso de La Vega)

Quando o amor é muito tênue ou nele se contém apenas traços indeléveis, ou quando nele se contem apenas o nome; quando há maravilhas por trás ou paralelo se subsai os grandes dias, vale a pena. Mas quando o amor está apenas na carne e dela se nutre o espasmo, nada vai além da própria carne: o que está na vez é apenas o corpo. Mas, senão o corpo, a alma estaria vazia?
Teria o indivíduo ter que se entregar com arte a própria arte de amar? E o que é a arte de amar, senão se entregar? Mas para se entregar, seria preciso a alma, além do corpo? Seriam os dois indissociáveis por natureza, ou o homem tende a querer interpor-se para achar que os dois são um só?
Se as dúvidas cabem a quem escreve ou aquele que ler, fica-se no ar para mais mistérios. Mas amar é um verbo muitas vezes conjugado e pouco vivido. E o tempo discorre a mostrar que ele (o tempo) tem razão: pouco se espera para amar, porque o que há de mais forte é a realidade. E ela tende a mostrar-se face a face como ingrata e cruel.
Há quem diga que o tempo é curto, a vida é curta e o tempo vivido somente. Para ambos o importante é viver: amar tão somente e dele viver naquele instante. Por que cobrar, por que corrigir quando o erro faz parte de todos? Por que infringir a lei da oferta e da procura, principalmente para quem nada oferta e tão pouco se procura?
Vale a pena os passos, como vale a pena os abraços, os sorrisos, os orgasmos, o hiato e o hálito. Vale a pena tudo, porque tudo nunca se sabe. Vale a pena viver, quando a morte está sempre nos calcanhares. Caminhar é preciso e o ar é preciso, a amizade é preciso, o “amanhã” mais ainda.
Amar sim e por demais e sempre. Nesse contexto, deve-se amar a tudo e a todos, do mais simples bocejo até a um piscar de olhos. O mais simples tem que se referenciar, e dele não tornar complexo, por quê?
Complexidade faz parte dos fracos e dos que não procuram saídas para o que mais lhe aflige. Complexidade é um ritual que se mistura no âmago e vem à boca e aos outros sentidos. Nada mais.
Paradoxalmente à frase desta crônica, “não me acabarei, jamais, pois entregar-me por que, porque amar é mais do que se entregar, é entender, é nutrir, é se espalmar aos ventos e aos dias, e nesse dias farei deles arte, para ganhar e me inteirar por completo.”

“... Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...”

Fernando Pessoa (O Guardador de Rebanhos)


domingo, 10 de junho de 2012


DE VOLTA, E AGORA E SEMPRE!!!!!

UM ano sem escrever, onde eu estava... Hibernado, preguiça, sem vontade, sem inspiração? Não sei, mas agora venho para mostrar sensíveis tópicos do que vivi nesses últimos dias, tanto da parte profissional, intelectual, diária. O que vi, o que li, o que assisti, o que passei.
Nesses tempos todos, como no meu conto, intitulado “Reflexo”:

“Vivi muitas aventuras, desventuras. Passei por tempestades, tomei água de chuva, cozinhei-me ao sol.” (Reflexo)
Como também, na poesia “Tempos depois”:

Por que, depois de vinte e seis anos ainda és páginas lidas,
És um mar dentro de mim?
Por que, depois de vinte e seis anos és um livro na estante,
Onde sempre busco relê-lo, mas não faço?
Por que, depois de vinte e seis anos fantasmagoras meus dias,
Como se nunca se foi, empoeirada nas minhas ilusões?
Por que, depois de tantos anos és aquela mulher de sorriso fácil,
De meiguice que somente eu sabia sentir?
Por que, depois de tantas luas e sois ainda me lambes os pensamentos,
Como se nesse instante estivesses ao meu lado, pedindo ajuda?
Por que, depois de tantos carnavais, de tantos sacrifícios, de esquinas viradas,
Uma música toca e tu vens a cantar comigo em um só refrão?
Ah! Pura ilusão, esses anos todos, foram esses anos todos de separação,
Mas basta uma melodia, basta reler os versos, aquele livro inacabado
Que tu vens!

Por que, depois de quase duas décadas ainda me caloras o meu lado,
A estares ao meu lado na sala de tão iluminada?
Por que, depois das minhas primeiras palavras elas ainda invadem meus tímpanos,
Como se fosse hoje, aqui, nesse fim de mundo, nessa solidão?
Por que Deus meu um ser tão perto, fugiu-me de repente na escuridão,
Quando, naquele tempo, o mundo era outro e a felicidade, sofreguidão?
Por que amei tanto aquele corpo, sem necessidade de tocá-lo para senti-lo tanto,
Tanto que nem sei ao exato o que me deixava tonto, se ele próximo, ele nunca?
Por que, depois de mil léguas traquejadas o vento ainda sopra sua fragrância,
Respinga em mim água dos cabelos molhados na pressa de chegar?
Por que, depois de tantas caravanas e latidos, vejo por cima dos meus ombros o teu olhar,
Como se estivesse sempre a me perseguir mesmo para nunca me enxergar?
Por que, por que fui eu te beijar naquela ansiedade de rapaz e hoje não esqueço jamais,
Da saliva doce e da língua nervosa que invadiu meu ser?
Por que, por quê?

Por que passei tanto tempo sem escrever, re-escrever? Não sei, mas estou a terminar um novo romance com título provisório de Pão e Carne, que este ano de 2012 deve sair.

Até  breve!

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Lei de Murphy à Bordo

Não quero ser indigesto, mas vou repetir a temática com relação às viagens de ônibus semanais. Há dias fiz uma crônica sobre as estatísticas com relação a quem se senta ao meu lado, e as mulheres passaram ao largo. Volto à temática, porque nesta semana a coisa foi demais.


O ônibus parou na segunda rodoviária, e o ônibus praticamente vazio. Estava absorto ao ouvir as notícias no celular, e sequer prestei atenção a quem embarcava na nave a sacolejar. Talvez se estivesse prestado mais atenção certamente impediria, pelo menos com o olhar, do gordo sentar-se ao meu lado. Mas, como o título desta crônica se expressa bem, impossível isso ter acontecido. Mesmo com os seiscentos olhos, as caras mais feias, o zombetear da cabeça em negativa, o homem sentaria por fim. Pronto, aquele volume de carne mal distribuída espalhou-se na cadeira ao lado. Um tormento. Vi-me forçado a recuar para o canto da poltrona, quase a esfregar-me a cara no vidro da janela e forçosamente a espiar cem por cento a paisagem, já vista de muitos anos, pelo menos a viagem toda.

Rechonchudo, largo, com bolsa nos pés, nesse caso obrigado a abrir as pernas e tomar parte do meu lado. Os braços estenderam-se nos anteparos da poltrona, logicamente sem espaço para que eu usufruísse pelo menos de um pouco do braço que separa as poltronas. Impossível. Recolhi os meus braços em cruz no peito, derreei a poltrona e tentei dormir. Tentei, mas não consegui, mas ele sim, e como. O do lado ajeitou a poltrona, ou a cama, estendeu-se como se estivesse em casa, inerte no seu jeitão, e rosnou, roncou, bufou, sei lá o quê mais...inconcebível. Não dormir, não cochilei e apenas rezei. Rezei para que a viagem fosse breve, mas, como breve? A mais longa da minha vida e de todos os tempos. O cara dormia à solto, sonhando com os mais belos pratos, cerveja, gordura beirando os cantos dos lábios, coisas desse tipo.

No sacolejar do carro, as estradas esburacadas, as curvas fechadas, e o homem a dominar todo o território. As pernas abertas, o rosto voltado para o meu lado: pensei: vai me beijar. Faltava pouco, como pouco também faltava ele jogar a perna sobre a minha, se acomodar mais ainda na poltrona e pensar que estava na sua cama mais confortável do mundo. Quem passasse para ir ao banheiro, poderia olhar e imaginar: “Que casal mais lindo.” Um terror!

O pior de tudo isso é que, durante a viagem, tentei olhar ao redor, à frente e consegui enxergar que todas as poltronas estavam vazias, pelo menos seis delas. E por que esse cara veio justamente sentar-se ao meu lado, dominar o espaço, dormir feito um porco, ronronar como um gato, só para que a Lei de Murphy tenha mais sucesso? Pobre de mim.

sábado, 16 de abril de 2011

ALIANÇA PERDIDA


Eu dormia ou tentava dormir na poltrona do ônibus já muito atrasado. Quando de repente, uma senhora ao lado, na outra fileira, despertou-me com o alarido:


- Minha aliança, perdi minha aliança!

As pessoas próximas acudiram à senhora com palavras de “como foi”, “para que lado caiu”. O alvoroço despertou-me de vez, mas não me mexi, sequer olhei para os lados. Tinha sido um dia daqueles. A espera do ônibus me fatigou, e mesmo acostumado com tanto atraso, não me sinto tão acomodado ao ponto de não querer criticar a companhia. Era um desrespeito aos usuários, sabendo-se que só havia aquela empresa para onde praticamente toda gente ia. Monopólio, volta aos séculos de exclusividades, em plenos tempos modernos, impossível.

Deixando o desassossego de lado, a voz rouca da mulher arranhava-me os tímpanos:

- Minha aliança rolou para o lado do homem aqui – e apontava para meu lado, mas não me mexi, tentava não dar ouvidos, pois sabia que encontrar uma aliança no meio de tantas pernas, de tantos bancos era quase impossível. Ademais, ao olhar de viés para a dona do objeto, vendo a situação dela, imaginei-a dentro da casa dos sessenta, e pelo visto o brilho do ouro foi-se com os anos. Então, como encontrar no escuro a peça preciosa da inconsolável mulher?

Uma senhora tentou ajudar, quase a rolar pelo chão com ajuda do filho. Procura daqui, procura dali, tentam, desistem por algumas razões: o escuro do ambiente e os solavancos do ônibus.

- Ela caiu sim pra essas bandas – indicava a mulher, sem sequer se mexer. Talvez com receio de perder o ponto onde viu a aliança sumir, talvez sem querer, pois via gente ao seu socorro, em revezamentos de uns e outros.

- Ela já deve estar perto do motorista – disse um senhor nos fundos do veículo.

Alguns riram, inclusive a mulher.

- Por favor, procurem, não posso perder a aliança.

Alguém poderia imaginar a falta que a aliança poderia causar à mulher, além do transtorno. Os vizinhos do banco atrás de mim comentaram: “Qual vai ser a desculpa em casa ao sentirem a falta da aliança?”. Confesso que ri, ali, baixinho, tanto pelo comentário maldoso, quanto pela situação: perder uma aliança no fim dos tempos, depois de longos anos de casada, era de achar graça. Mas o que não se esperava foi o comentário após a inclusão do ponto de vista de um engraçado no fundo do ônibus:

- O que irá dizer o marido quando chegar em casa?

No meio da algazarra de sorrisos, a mulher se saiu com uma que ninguém esperava:

- Ele não vai reclamar: está sob sete palmos de terra, há mais de quatro anos. Essa era a dele, a minha eu derreti e vendi o ouro.

Vão-se as alianças e os dedos que não reclamem.