domingo, 25 de outubro de 2009

NOSSA MÃE DEZINHA


A morte sempre é cruel e nunca desejada. Por mais que ela seja esperada, e ninguém espera, e mais reconfortável quando na velhice. Toda e qualquer pessoa não pensa nela, e paralelo toca-se a vida por mais tépida, por mais frívola, por mais chata. Quem não teve um ente querido que se foi e nós, vivos, na frugal esperança de que nos veremos no paraíso?

Dia 20 de outubro foi o dia. Nossa genitora, depois de 84 anos, fechou seus olhos, apesar dos mesmos antes vivos, porém ausentes, estarem mortos para nós, os filhos, parentes e amigos. Perder uma mãe, em qualquer que seja o tempo, ou na tenra idade ou no ápice dela, é inconsolável.

Nossa mãe, infelizmente, acometida do mal de Alzheimer, durante 12 anos, penetrou numa penumbra progressiva e fechou-se no seu tempo e lugar. Palpitava seu coração, seu sangue dos Franças, mas não sentia, não via. Respirou por bom tempo os ares de Aurora, acolhida por aquela gente, embora sempre desejasse enterrar-se em Juazeiro do Norte. E assim se deu.

Nossa mãe, depois de fechado os olhos, estampou no semblante a carne da velhice, a delicada senhora que em vida não tinha vaidade, e não me lembro muito de que nos seus lábios batons avermelhados analtecessem, ou ruges nas faces, ou brilhos nos cabelos, ou roupas espalhafatosas ou unhas irremediavelmente pintadas. Lembro-me bem do seu sorriso, do seu jeito peculiar de ver as pessoas, de tratá-las, de pregar a palavra de Deus. No seu semblante ainda dava para ver as rugas serpenteadas de uma vida bem vivida ao seu modo, ao lado de um homem que soube entendê-la, que soube enaltecê-la. Rugas cravadas de uma vida cheia de alegria, apesar de alguns anos no sofrimento econômico, no quase impossível para educar os filhos, alimentá-los, mantê-los. Rugas de uma mulher batalhadora, de uma companheira solidária, de uma mulher de fé que mapeou quase todas as ruas e casas de Juazeiro de uma época em "tirar a Renovação", levar os santos nas casas, milhares de novenas. Não dava para ver seus joelhos revestidos de roupas e flores, mas eu os sabia, pois neles ainda estavam marcados os calos de tantas orações ajoelhadas aos pés de santos e santos e santos.

Joaquim, Agnelo, Arnaldo, Adailton e Anchieta Mendes, aquele primeiro o marido, e estes demais os frutos e sobreviventes de uma prole de 12, foram os homens da nossa mãe. Ela trouxe a todos no rolar das contas dos rosários em orações fortes e incansáveis. Estamos vivos, menos o pai, e espero que ainda sob as suas preces. Quiçá que elas durem por muitos e muitos anos. É a tal da morte que nos impõem medo.

Nossa mãe ainda vive e viverá em nossos enlutados dias.

Um beijo pra ela lá no seu firmamento.

sábado, 4 de julho de 2009

A CRIANÇA NÃO É MEU FILHO


Billie Jean is not my lover
She's just a girl who claims that I am the one
But the kid is not my son
She says I am the one,
but the kid is not my son
(Billie Jean – Michael Jackson)
Parafraseando Michael Jackson nesse tempo de sua morte e das relembranças sobre sua vida, seus sucessos, seu algozes e seus milhares de fás, escrevi um conto com o mesmo teor: “Toma que o filho é teu” há algum tempo. Quando vi o verso, lembrei-me automaticante do que escrevi.
O mundo deu a Michael Jackson um imenso filho, uma galeria de fás que não quis saber o que ele era, o que ele foi, mas a importância da música, do seu jeito único, da dança, da sua presença no palco, da criatividade absoluta, do menino que dormia dentro de si.
Comparo tudo isso à foto de George Okanda: folha única, molhada pelo orvalho, segura a fio no tronco da árvore, a espera da brisa que a levasse pelos campos, prestes a ir-se com a gota d´água como companheira.
São duas imagens que perfilam muito bem o tom que a vida dá: o primeiro como soberano, não-simples, mas tácito em ser um ser humano do mundo, envolvido em grandes atuações; o segundo como uma parte no universo da beleza natural, onde um olho sensível nos captou para o nosso deleite. Ambos como nuances para encher os olhos. Ainda ponho na mesma linha a suavidade da folha e o verso do compositor: But the kid is not my son. Uma negação às intempéries da vida, aos percalços, quiçá os sucessos, a idolatria, o título de King of Pop. Se de um lado há a realidade cruel, por que não volver-nos para a natureza, à folha verde cheia de vida, ainda que no futuro envelheça e tornará adubo. Michael não envelheceu tanto, mas o bastante para o que mundo vislumbrasse nele a folha cálida e única aos olhos mais sensíveis.

domingo, 3 de maio de 2009

AUTÓGRAFOS



Estive a autografar o meu livro DOIS DEDOS DE PROSA, para alguns funcionários da empresa Calçados Senador Pompeu. Foram tantos, e quando percebi, para cada livro autografado, eu oferecia com um pensamento. Sabe aquele pensamento que vem aos jatos, de uma vez, e percebi que seria interessante postar no OBSERVAÇÕES DE BORDO, porque ficou diferente, e os repasso a vocês.
Se o homem lesse mais, quanto o mundo seria outro;
Um sorriso vale ouro, tanto quanto uma amizade verdadeira;
Por mais que seja árduo o trabalho, melhor será sua recompensa;
Um dos melhores momentos na vida da pessoa é aquele em que o sorriso tem o gosto da vitória;
Saber ler não é apenas com os olhos, mas com mente e alma;
A humildade de um homem ainda lhe faz grande;
Saber trilhar os caminhos da vida não é fácil, mas tem que se tentar a cada dia, e desistir jamais;
O homem sempre busca descobrir mais coisa, e que essas coisas sejam os valores que brotam dentro dele;
O encanto de uma pessoa não está nos cabelos e nem nos olhos, mas na simplicidade que ela se apresenta;
Um pó de arroz pode até rejuvenescer, mas é necessário pós de letras e palavras para fazermos mais inteligentes;
Desesperar jamais, pois o amanhã sempre nos brilhará com o sol de um novo dia;
Quando mais de uma letra se junta com outra se faz uma palavra, e esta às vezes nos surpreende quando menos se espera;
Por mais que sejamos grandes, sempre há detalhes que nos faz pequenos;
De puro prazer de ler, se sente o transporte para outro mundo;
Somos grandes naquilo que fazemos, por isso temos que confiar em nós mesmos;
É necessário, em vida, acreditar em Deus sempre, embora saibamos que acreditar nos homens não é tarefa fácil;
Um choro de criança igualo ao de escrever: ambos nos faz sentir que somos pais;
Como seria interessante que nascêssemos velhos e morrêssemos novos;
O gosto maior de um escritor é quando ver sua obra nas mãos do leitor, e melhor ainda: quando se é lida;
Se os olhos vêem o mundo, imagine o que a alma tem para dizer;
O sol que nasce todos os dias é uma certeza de que a lua logo vem;
Se a vontade é de sempre pescar peixes, não é tão ruim pescar palavras e pensamentos: ambos saciam a fome;
O momento mais marcante entre as pessoas são aqueles traduzidos pela alma;
A maior bravura de uma mulher está na condição de ser mãe;
Cada palavra neste livro é como pétalas de uma flor silvestre, e olhe que foi germinada pelos ventos e brisas;
Conviver bem não é fácil, embora o homem não saiba viver só, e não há um só dia que o sol e a lua sejam iguais;
O conhecimento é a única herança que jamais é roubado;
Galgar um posto mais alto é sempre a ânsia do ser humano, embora a espera por isso maltrate-lhe os dias;
Deus existe, é verdade, e a semelhança nossa muitas vezes nos envergonham de assim sê-lo;
Um livro pode ser um amigo, uma companhia, e ele fala tantas coisas a cada dia, a cada leitura e releitura;
Ver uma página em branco é algo que encanta e espanta um escritor: só outra para incentivá-lo a ir longe;
Não basta apenas deglutir, mas saborear cada palavra, cada vírgula e o resultado será uma ceia das mais cultas;
A busca pelo melhor faz parte do homem, não lhe interessando se pelos verdes ou pelos desertos: o importante é encontrar;
Cativar as pessoas é um sentimento que só ao homem é dado, por mais que sejamos animais.

sábado, 18 de abril de 2009

DA FICÇÃO PARA A REALIDADE


Observações de bordo está de volta. Em uma das minhas crônicas, lembro-me bem, falei de que muitos escritores tecem suas obras a partir de uma imagem que viu (jornal, revista, televisão ou da sua realidade diária). Há histórias contadas a gosto, de uma forma lúdica, de uma maneira prazerosa, desde à própria imaginação do autor, até de uma realidade que ele viveu, que ele presenciou ou mesmo que alguém lhe contou.
A minha história de hoje baseia-se em uma realidade que ouvi pelo próprio autor. Era uma manhã meio chuvosa – meio porque chovia, parava, voltava a chover, garoava, molhava o asfalto e as gentes. Fiz parte desse cenário chuvoso, naquela manhã. Vi-me num hospital a espera da consulta. Muita gente, pessoas que se eu atentasse bem, para cada uma nasceria uma crônica inusitada. Não procurei ninguém, nem sequer balbuciei palavras de um bom dia, olá como vai para ninguém. Porém, assentou-se ao meu lado um senhor. Reparei nele o uso do chapéu, de óculos antigos, de aspecto inteiro e de passos firmes. O corpo esguio, porém de estatura mediana, vestes simples e de um olhar vivo, audaz, atento. Sentou-se ao meu lado. Reparou-me, não perguntou meu nome no primeiro balbucio de palavras – talvez pelo fato de que aquele encontro seria único, não interessava o depois – e nem eu, sequer imaginaria que ele poderia estar sendo observado e transcrito para essas páginas dias depois. Para nós, bastava apenas aquele momento.
Seu Raimundo Nonato – ele deu-me o nome para minha lembrança – iniciou a palavrear em tons baixos, soltos, quase ininterruptos, onde aqui e ali, eu esforçava-me a entender, e a conversa prosseguia. Disse-me os seus anos: ”Você acredita? Tenho 94 anos. Ando só, já fui até para o Pará, sim fui, sozinho, passei 8 dias nas estradas.” “Ainda hoje coloco minha rocinha, sou do campo e de lá não saio.” Filhos! “Mais de 30 espalhados por aí. Três casamentos, onde as duas primeiras mulheres morreram, e essa última ainda está comigo. Tem lá seus mais de setenta anos. Não me serve mais... Aliás, ela mesma disse para mim: `Raimundo, não sirvo mais para essas coisas... Pode se virar´. E o senhor, o que faz? “Pois é, faço. Venho aqui pra rua de 8 em 8 dias... “Não gosto de mulheres velhas, só novinhas...”
Rapidamente, como se acendesse uma lâmpada no meu cérebro, e naquela vontade de rir e a olhar para aquela personagem de contos, de novelas, de romances latinos americanos, veio-me Gabriel Garcia Marquez com sua novela Memórias de minhas putas tristes. Não seria mais semelhante, igualmente idêntico. A novela de Gabo retrata as memórias de um senhor nonagenário, quando do seu aniversário quis comemorar com uma menina virgem. Olhei para seu Raimundo e vi nele a imagem do personagem de Gabriel Garcia Marquez. Na novela tudo foi impossível, mas para aquele homem ali, de 94 anos, lúcido, forte, cheio de vida, segundo o mesmo, ainda sentia os prazeres da carne, embora as prostitutas não fossem mais virgens. Senti-me ali pequeno, longe do personagem real e tentei não pensar no meu futuro, nos meus anos que virão, e teimei achar que tinha certeza que eles virão mesmo.
Seu Raimundo ainda continuava a falar, falar, enquanto eu ia viajando no seu passado, na novela de Gabo, nas pelejas do homem ali perto, a falar de Lampião, de comparar bandidos de antigamente com os de agora; os daquele tempo eram mais “honestos”, os de hoje não valem um “vintém”. Entrou na política, rememorou quando tinha 11 anos ficou ao lado da figura mais incrível daquela época, o cangaceiro temível. Com 11 anos também discutia política, sabia bem das coisas, era inteligente. Quando com 80, ganhou o cargo de delegado do lugarejo. Disse ainda que não tinha medo de bandidos, conviveu com muitos, mas, andava armado. Mostrou a peixeira nos quartos.
Ri, mais comigo do que com ele, e quando ele foi chamado para ser atendido, deixou-me intrigado. Lá se ia uma vida longa, de tempos longínquos, de saúde e imponência. Deixou-me cá a pensar que a vida era engraçada, apesar dos pesares, das dores e dos ais.

domingo, 22 de março de 2009

UM OLHO, OUTRO OLHO


Estive ausente, estive longe, estive nulo, mas não morto e nem podre e nem frívolo. Estive ofuscado, mas com brilho. Estive lógico, mas sem tempo, ou o tempo estava sem mim? Não sei, só sei que cá não estive, ou talvez sim, lendo e relendo o que escrevi. Vale a pena, sim, retomar, porque se poucos me lêem, poucos são muitos nesse universo de carne e ossos conturbados, soltos a léguas e próximos. É bem verdade que se precisa de paz, de espaço, de ciência, de tato, de gosto, de tantas coisas. Ora, se ao meu lado a televisão grita impropérios por conta de assaltos, de escândalos, de enchentes e de prantos, quem sou eu para pensar e dizer que “não estou nem aí?” Estou sim... Estamos!
Mas não vamos longe, seguimos de passos curtos, pé ante pé. Isso para não acordar os desavisados, caso haja por aí tantos. Por isso que nesse texto semi-lógico, vou tentar usar o máximo para poetizar o momento e remexer com o que está, agora, nesse período de festejos em Juazeiro do Norte. Primeiro um poema, para depois prosear sobre o nosso Patriarca. Dois textos independentes, mas como os poetas que lêem, os escritores que auscultam podem até associá-los: coisa de doido.
Espere um pouco...
Um olho, outro olho

Se um tem tanto brilho,
O outro ofusca, mas acompanha com esmero;
Se um é aquele que espero,
O outro não se tornou tão frívolo.

Um tem a diferença mais marcante,
Outro não acompanha tão bem;
Aquele tem o jeito de um amante,
Este não se compara a ninguém.

São dois, claro, num rosto oblíquo,
Mas não são iguais assim tanto;
Ambos têm diferenças lógicas,
Pois se nota logo num espanto.

Se um é libidinoso e passivo e pronto,
O outro tem brilho até demais;
Se um é semelhante a lascivo e santo,
O outro, pasmem, é o diabo por trás.

Mas ambos riem, choram, a tudo enxergam
No mesmo campo facial e amplo;
São dois diferentes olhos que se interam
Um e outro em vários ângulos.

Pois é, por vários ângulos se ver tudo ou quase tudo ou quase nada. Se o poema acima se fala de olhos, também pode falar de observações, de analogias, de simetria... Ah! Que versejem como quiser. Mas lhes pergunto: Que ângulos são vistos a figura do Padre Cícero? Com um olho, outro olho, dois, um, vários, milhões? Aposto que são vistos assim: menino, homem, padre, missionário, vidente, realista, intelectual, messiânico, idolatrado, empreendedor, naturalista, amigo, da família, bem feitor, político, embusteiro, santo. Quantos adjetivos, quantas maledicências, quantos pormenores, quantos mistérios. Quem se atreve, dentre esses detalhes, escolher um ou outros para bradar a quatro ventos a bandeira escolhida? Veja bem que muitos assim o fazem, mas por uma causa própria, desejada, afogueada por uma fé camuflada. Fé no dinheiro, no sucesso do negócio, no mau olhado, porque já se sabe: Se em certas terras o que se planta, nasce, aqui em Juazeiro o que se implanta, cresce. Por que?
Teria que responder àqueles adjetivos que se perfilam sobre o Padre Cícero e passaríamos horas. Alguma dúvida?
Há alguém que perdurou seu nome por mais de um século quanto à sua vida, à sua luta e à sua particular santidade? Não há uma igualdade quanto a isso, por mais que vasculhemos a história do Brasil e do Mundo, e por mais que queiramos assemelhar, encontramos poucos, assim, nessa vertente, nesses ângulos.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

O PASSADO NUNCA MAIS


“No presente a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa que não nos serve mais

Como Poe, poeta louco americano,
Eu pergunto ao passarinho: "Blackbird, o que se faz?"
Raven never raven never raven
Blackbird me responde:
Tudo já ficou atrás
Raven never raven never raven
Assum-preto me responde
O passado nunca mais.”
Velha Roupa Colorida, Belchior

2008, Natal, final de ano e uma recordação. De tantas idas para o centro da cidade, muitas vezes evito passar pela Rua São José, entre as da Carlos Gomes e a Padre Pedro Ribeiro. Nesse trecho está, ainda, a casa 1040, com a sua segunda fachada. Foi lá onde nasci, juntamente com meus onze irmãos, mas somente quatro vivos. E, então, não podendo evitar, passei por lá esses dias e a porta estava aberta, como à minha espera, à minha passagem. Parei o carro quase que automaticamente e me veio a idéia de tirar umas fotos, sabe-se lá se os novos donos não resolvam por abaixo o que ainda resta de lembranças? Nostalgicamente perfilei-me frente a ela e aos borbotões vieram as lembranças mais que longínquas e fincadas na minha mente. Primeiro a de meu avô, pai de meu pai, numa lembrança apagada, sofrível, vendo-o doente, mas sem a presença do rosto e nunca cheguei a vê-lo, pois sequer havia uma foto dele. Depois, as dos vós maternos, que alias viviam num casarão próximo, o de nº 1085. Lembrei-me bem das janelas e portas enormes, uma calçada assoberbada e única do lugar. O pai de minha mãe lhe deu a da 1040 como presente de casamento. Mestre Duda, senhor dos sapateiros, grande mestre das alpargatas, chinelos de couro, tamancos. Se naquela época media-se o homem pela posse de casas e terrenos, ele era um dos mais opulentos. Quarteirões e mais quarteirões. Os seus produtos eram feitos com qualidade, com maestria, por isso a alcunha de Mestre Duda. Naquela época tudo o que se fazia era por amor à profissão. Analfabeto, lembrei-me que lhe ensinei as primeiras letras do alfabeto, ia deixar-lhe o chá no “capim”, lugar aonde ele ia todas as manhãs ver suas terras, um local reservado a uma lavanderia, com um enorme cacimbão, em que as mulheres iam lavar roupas. Não me lembro se ele aprendeu, porque logo o mal de Alzheimer paginou-lhe em branco as suas memórias. Já era tarde.
Voltando à casa inicial, vejo meu pai e minha mãe. Vejo Joaquim e Dezinha passando-nos lições de vida, orando fervorosamente por nós e conosco. Tudo que envolvia os dois era equilibrado pela fé nos santos e no Deus misericordioso. Vi um tempo de sacrifícios, da água que ainda não era encanada, da fachada da casa que era de taipa, das orações de joelhos de toda as noites, da espera agoniada pelas sextas-feiras ao pé do rádio à válvulas, para ouvir “A hora do mistério”, programa da Rádio Progresso. Um programa de contos misteriosos, assombrados. A partir dessa época ficou em minha mente o gosto pelos contos, pelas narrativas, pela oralidade popular. Vi uma época de vacas magras, de meu pai saindo da Indústria de Rádio (eletromáquinas), sendo o último de uma indústria falida. Vi-o consertando rádios e televisores, recondicionando motores, sendo ministro da Eucaristia, da Ordem Terceira Franciscana, a morrer de um infarto do miocárdio. Junto com ele e inseparável, minha mãe, professora de corte e costura, dona de casa de mãos fortes, de uma presença de espírito formidável, embora com um gênio desmedido. Vi-a ensinando cartas de ABC e Catecismo a milhares de crianças durante toda a sua vida. Via-a sentada na porta da cozinha cozendo, lendo orações, tricoteando, nos ensinando pontos de tricô, a cantar benditos, a afagar os gatos no colo, a dar ordens, a nos ver da cabeça aos pés, a nos vestir depois do banho e deixar-nos na calçada para ver o mundo; vi nossa mãe a clamar para nosso pai a nos bater por uma peraltice qualquer. Ouvia-a falar frases que só a ela era peculiar, ditados vários que um dia irei apregoá-los em meus escritos: “só que ser os tamancos de Roque”, “um calor dos seiscentos cravinotes”, “tai, mané, teu tio?”, “não tem nem no cu o que o canário coma”, “enxerido sem lenço”, e vários outros. Vi-a, aos poucos os seus cabelos embranquecendo, suas rugas aumentando e a memória se perdendo nos labirintos do cérebro. Hoje vive em Aurora, sem memória, sem porvir.
Olhando rapidamente para a rua, agora estendida e ladeadas de casas bonitas e atualizadas, enxerguei o lugar da casa de “D. Maria do Caréu”, uma mulher que tão bem sabia costurar, e que tinha no gogó um enorme caroço, que muitas vezes quando ela falava com sua voz rouca, me dava sustos. Não sabia que a mesma tinha uma doença já avançada: a da tireóide. Indo mais devagar, vejo a esquina, onde no bar dois homens se encontravam diariamente para bebidas e prazeres: Marcondes e Tico Bacorim. Bebiam pelo prazer, e sempre estavam arrodeados de meninos e gente simples. Pagavam bombons, guloseimas. Um dia, um homem comeu duas barras de doce de goiaba em poucos segundos, e isso fez com que os dois, divertindo-se com as bebidas viram ali uma forma de deliciar-se com as cervejas, tanto quanto pelo teatro: pagavam para rir e divertir-se. Inventaram corridas, competições entre os meninos. Rabiscavam com carvão os números de cada atleta, e aquele que chegasse primeiro a dar a volta no quarteirão ganhava uns trocados. Meu irmão Adailton Mendes, ganhava todas as corridas e dava o dinheiro à nossa mãe. Também ele plantava bananeiras, a dar voltas no quarteirão sem pôr os pés no chão. O passado nunca mais.
Tentei, quase que em vão, apesar do resguardo no canto da memória de tudo isso, ver a nós todos, irmãos e família. A casa arqueja, somente com a fachada e os escombros. Um cenário que se avulta aos meus olhos e me transporta para longe. O passado nunca mais voltará, é triste pensar assim, mas a verdade me bate nos sentidos com um sopro incomum. Qual o sentimento, ao ver o lugar, o chão, as paredes (o teto não existe mais), os fantasmas ziguezaguearem pelos escombros, pisarem um solo “sagrado” para nós os Franças e os Mendes. Fantasmas que me suplicam que jamais os esqueçam, apesar dos anos, da lida, de outras vidas alheias e que nos faz naufragar no tempo e no espaço afastados dessas lembranças que lacrimejam os olhos e a alma.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

ENCANTADO




Seguindo pelo rumo do sertão, ladeado pelos farfalhar das asas da arribação e do carcará, esta semana fui a estes sabores. Ao longo desta crônica serei enfático, repetitivo, porque encantado fiquei com o lugar. Minhas retinas, ainda não tão fatigadas, se encheram de pedras, de monólitos e de um fragor de cinza que muito delas não há de saírem. Também convoco minh´alma para saborear desse enlevo e com a minha carcaça e todos os outros sentidos também se deliciarem. Se o mar é tão maravilhoso aos olhos, essa paisagem é encantador a eles.
Na tentativa de entrevistar pessoas do setor de saúde, em Quixeramobim, fiquei com gosto na boca e de inveja por não ter que todos os dias por essa paisagem passar. Tudo que envolve os monólitos, envolve também o lugar, as gentes, os bichos, os pássaros, a imensidão do céu.
Encantado é um lugar petrificadamente encantado. Se há lugar semelhante eu não conheço. Passamos no roçar das rochas únicas, indelicadamente imóveis, fixamente invariáveis e apaixonadamente soberbas. Os caminhos que levam o menor dos seres àquele lugar são tortuosos, porém majestosos. Caminhos onde os galhos secos inclinam-se sobre as pessoas na iminência de abraçá-las, de segurá-las e dizer-lhes: bem-vindos. São galhos, pela época, que lógico ficarão verdes, que parecerem se mover, como aqueles filmes de terror, de braços esguios, balançando-se na passagem e quase a nos seguir. Não tem cores, como no arco-íris, mas tem cor única e que nos diz de prontidão quão maravilhoso é tudo ao redor. Fala-nos a cada curva, a cada roçar de galhos, e na proporção que as rochas se aproximam, lentamente, elas vão nos dando a certeza plena e absoluta de que somos seres pequenos e indefesos. A monstruosidade das rochas nos fala que devemos ser humildes e coerentes conosco e com quem nos cercam. Diz-nos que não precisamos e nem devemos fechar os olhos ao cenário incólume da sua formação e nem passarmos despercebidos à grandiosidade da natureza. Ah! Mas como passar por ali sem avistar tamanha grandeza, mesmo os cegos enxergariam, não a luminosidade, mas o sabor dos ventos temperados vindo delas.
Encantado, quem pôs esse nome ao lugar foi feliz em assim fazê-lo. Como foi interessante a idéia de se usar uma das dezenas de rochas, como um abrigo para a reunião de pessoas em torno de uma bebida e de encontros. Usou-se as duas naturezas: a da inércia dos monólitos e a vanguarda da mente humana. Não colocaria aqui a questão ecológica, mas a preservação do lugar, sim.
Encantado fiquei e tentarei sentir mais vezes, mesmo nessa minha crônica, como nas imagens ou de longe, o sabor de que as rochas não são apenas rochas, mas uma delicadeza de um dedo indubitavelmente poderoso que ali pôs em cada palmo, em cada molde.
Que o povo do lugar e aqueles que ali visitam e passam e ficam, levem consigo a certeza de que Deus existe e nós temos apenas que reverenciar e sentir de perto a sua imensa grandeza.