sábado, 10 de novembro de 2007

QUEM ESPERA SEMPRE ALCANÇA


”São quatro jogadores, nesta mesa

Frente a frente para jogar (...)

São quatro jogadores, nesta mesa

Dando as cartas, no jogo surdo da vida.”
Xangai, Kukukaya

São quatro pessoas a espera de um ônibus. Quatro felizes almas que buscam, separadamente, o seu destino. A espera torna-se longa. O ônibus certamente está atasado. Não é da primeira vez e acredita-se que não será a última. Mas vale a pena traçar os quatro perfis dessas pessoas a espera de uma condução que as conduzirá a seus destinos. Ao meu ver todas com ansiedade num nervosismo peculiar de quem sempre está apressado, numa agonia incontida, porque se sabe que esperar não é uma virtude do brasileiro, que, aliás, espera tanto e em tantas ocasiões, como filas de banco, de lotérica, da esperança de dias melhores, da aposentadoria ou do amor que nunca veio.
Uma delas espera ansiosa que o ônibus venha logo porque a mãe que ficou na cidade destino vai estar só, doente e necessitada da presença da filha; não espera sentada, porque cansa e maltrada os nervos. Trás nos gestos e na voz característica de uma jovem que vive todos os minutos da vida e os acha preciosos, não pelo fato de deixar logo o lugar de onde estava, mas para estar sentada numa poltrona do ônibus e que a levasse para o destino final e que fosse bem. Em casa a mãe com problemas de artrose a esperava, acredita-se, também ansiosa. Certamente a filha era muito importante, não pelo fato de ser somente filha, mas por ela ser amável e carinhosa. De todas as pessos a espera, era a mais inquieta, nervosa, caminhando de um lado a outro, olhando de quando em vez para o sentido de onde o ônibus vinha. Sorria de vez em quando, era verdade, mais para esconder o fato da espera. Deixou na cidade de origem o seu amor recente, entregue aos dias da sua ausência, pelo menos por um dia e meio, não sabendo ele que esses dias iriam ser estendidos por uma folga do trabalho ampliada. A segunda personagem, também mulher, não espera em pé, pois consegue deixar estar sentada e aguarda o ônibus também nervosa porque precisa estar numa reunião de empresa, embora a reunião seja ainda para outro dia; nesse tempo então de ansiedade e palavras saltitantes aos lábios e ouvidos, ela deixa escapar o passado da vida, onde tivera vivido dias de angústia e aquele trabalho atual a fazia de uma pessoa realizada. Achava-se importante por sentir-se útil num trabalho que a elevava como pessoa e como mulher. Aliás, única como vendedora em meio a tantos homens. Sentia-se por deveras envolvida por uma áurea de brilho porque por ser única também o era por uma questão de sobrevivência e por gosto pela profissão. Sua voz, aos comentários aleatórios, eram bem traçada com bastante autonomia, todavia a espera pela condução a trazia de volta pelo desespero da espera e do cansaço antecipado. No fragor dos seus jovens anos e do seu olhar alviçareiro traduziam numa mulher preparada e sabedora do que queria. A terceira mulher triangulava o cenário numa calma sem medida em relação as outras duas. Não falava, não transpirava e nem sequer se maldizia. Para ela em relação as outras o ônibus estava ainda no horário. Trabalhava representando produtos de beleza. Certamente representar beleza parecia precisar de nervos, de aparentar calma e deixar no semblante traços dos produtos como uma excelente representante dos mesmos. Outra pessoa, claro, era eu que fechava os quatro numa espera que, pelo tempo, estava nos deixando agoniados. Resultado: o ônibus tinha ficado pela estrada com defeito. Esperava-se então outro que estava por vir, daí a demora incondicional.
São quatro personagens com destinos semelhantes, embora com finais em separado. Do meu ponto de vista, do meu ângulo quase incontrolável, as vejo num diferencial medido. São jovens, são mulheres, são pessoas com suas vidas bem delineadas em busca sempre do amanhã. São viajantes como eu e são esperançosas como tantos outros. Num jogo de cartas na mesa, como na música acima, e aí me incluo, são quatro jogadores envoltos da mesa da vida em busca de ganhar, de vitória e de dias que sempre sejam páginas preenchidas por letras vistas e revistas. São quatro jogadores com palavras fáceis num jogo surdo da vida, embora as duas primeiras não parassem nunca de trazer sons aos tímpanos. São quatro pessoas com olhos de futuro, com mãos crispadas pelo gosto apetitoso pelo avanço dos dias e pela busca dos sabores deles. São quatro viajantes com sorrisos fáceis, apesar da espera agoniada, embora no fundo se saiba que quem espera sempre alcança, independente do tempo.
O ônibus chegou para abrir o sorriso de todos.

sábado, 3 de novembro de 2007

CRUZES NA ESTRADA


“Caminheiro que passas pela estrada,

Seguindo pelo rumo do sertão

Quando vires a cruz abandonada,

Deixe-a em paz dormir na solidão.


Que vale o ramo do alecrim cheiroso,

Que lhe atiras nos braços ao passar,

Vais espantar o bando buliçoso

Das borboletas, que lá vão pousar.”

(Castro Alves, A cruz da estrada)


Belchior, cantor cearense, tomou emprestada a epígrafe de Castro Alves acima para uma canção sua: Aguapé. Aproveito, então, da mesma epígrafe (A cruz da estrada) para abrilhantar minha observação dessa semana. O dia é de Finados, referência aos nossos mortos e tento compreender tantas cruzes pela estrada por onde passo semanalmente. No trabalho do grande poeta baiano, ele fez referência ao escravo, onde na solidão da beira da estrada ele repousa absoluto abraçado à sua liberdade. Liberdade esta da morte que lhe apossou enfim nos seus últimos suspiros.
Fazendo uma alusão nessa candura de palavras, também seguindo pelo sertão, não vou, claro, tentar tirar o sossego dos mortos que lá repousam, mas vou despertar os vivos que cá estão. Nem tão-pouco atirar alecrim, mas ao invés disso atiro-lhes esses pensamentos para tentar reparar os absurdos que acontecem nas estradas do nosso país. Porque se há cruzes na estrada, houve violência que norteou esses marcos. Atiro-lhes nos seios desses serem insepultos e abeirados uma compaixão, sem sequer saber como foi a causa da morte. Ademais não é preciso fazer uma análise ou estatística, pois os atropelamentos, os acidentes falam por si em diversos ângulos. Falam sem parar devido a inconsciência de muitos, das adversidades de cultura, dos absurdos de que o mal só acontece com o outro. Os sertanejos, mais precisamente plantam essas cruzes numa junção de dor e lembrança do seu morto, como também um alerta para os que por ali trafegam. Por mais que haja aplicação de multa, de advertência, de melhorias nas estradas, não há uma estagnação nos acidentes mortais. Quantas cruzes ali estão e que serão fincadas a cada ano?
Sim, “que vale o ramo do alecrim cheiroso”, porque dele não há mais importância. Devemos atirar mais condolências, perdão e promessas de mais prudência. Despertar, não os mortos nos seus sufrágios, mas os tais vivos que matam, que maltratam e limitam a vida de muitos. Despertar nossas consciências e sermos mais humanos e ao invés de “alecrim” se possa atirar vida e esperança.
“Vais espantar o bando buliçoso/Das borboletas, que lá vão pousar”. Aludir às borboletas como seres indefesos e coloridos aos olhos. Seres frágeis que abrilhantam e sugere-se companhia nas mais puras das solidões. Quando os carros passam, os homens passam ao largo e ao léu, as cruzes ficam para trás esquecidas, ignoradas, sem alecrim e sem paixão. Seria preciso um dia, num amontoado deles, para lembrar delas abandonadas à beira da estrada ao sol e ao sereno. Lembrar que antes havia luzes e as borboletas não tinham onde pousar. Antes havia vida e alegria e encanto e amor e sofreguidão, mas hoje somente oração.
Diminuir as cruzes seria um passo, mas bem melhor diminuir os sofrimentos de quem fica. Diminuir as atrocidades e trocar essas cruzes pela reeducação e aumentar a cultura e a consciência do homem que se esconde por trás de um volante, e quem sabe ler mais Castro Alves e ouvir Belchior nas suas interpretações bem mais motivacionais.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

SEU MUNDINHO


Km 20 ou Senhor do Bonfim, distrito de Senador Pompeu, é uma localidade simples, cortada pela estrada do algodão que liga as regiões do Cariri, Centro-Sul e Sertão Central à capital Fortaleza. É neste dito lugar que eu desço nas minhas viagens e de onde espero o ônibus de volta. Já fiz amizades com boa gente e numa dessas idas e vindas, apresentaram-me um personagem de encher os olhos e de nunca esquecer, principalmente para nós que fotografamos o momento pelas lentes dos olhos e de guardar na memória passagens diversas. À primeira vista achei-o estranho pela sua formação, pelo seu biótipo: no rosto estampavam-se as cavidades laterais das faces de uma magreza, que para ele (depois percebi) era de uma fortaleza sem medida. Logicamente o panorama do corpo em todas suas linhas comungava com o que se via nas faces do seu Mundinho. Apresentou-se assim alvissareiro, alegre, saltitante. É verdade. Nunca o tinha visto pelo tempo que permaneço nesse lugar semanalmente. Um personagem daquele que a gente ver no meio da feira, como se vendesse pomada para mordida de cobra, embolador ritmado sem parar de falar:
“Senhor você não me conhece, mas o que vou lhe dizer está aqui e ali bem perto de você. Para se curar de vez contra tiros e olho grande, tome três goles d´água e se benza, isso bem cedo ao se levantar. Assim, sem mais nem menos. Para você ter idéia, tenho cinqüenta e seis anos e mais pareço um menino. Esse corpo que você ver já saltou de andares e no chão pisei com leveza e maestria. Andei com todo tipo de gente, valentões desse Ceará, capangas de coronéis, assassinos dos mais brutos. Tomei cerveja com eles, fumei cigarros atrás do outro e cá estou para contar história. Tenho o corpo fechado por uma fé que carrego passada pela minha avó: três goles d´água e um pai nosso. Nada mais do que isso. Corpo fechado para bala e olho grande, repito. E não sou dos antigos, pois me considero jovem: danço não somente danças de forró antigo, nem xaxado, nem valsa, nem xote ou maracatu. Danço também essas danças de hoje como ninguém: na boquinha da garrafa, a bundinha (nisso fazia o jeito da dança numa leveza ao mesmo tempo cômica).
Senhor, não tenho inveja de ninguém porque disso não preciso. Não fui à escola, no banco dela não sentei, mas sei as contas de cor, pra testar é só falar. Sei de frente e de trás pra frente, e nem na calçada da escola passei.
Vejo que o senhor, mas antes qual a sua graça? Pois é, também rezo para tirar quebranto, espinhela caída, olho grande e má querença. (Falo então de um joelho meu quebrado por causa de acidente). Não se desespere, vou rezar agora mesmo, e antes que o sol se ponha o senhor não sentirá dor, mas não faz mal lembrar, porque lembrança é coisa que todo homem precisa ter, que tem que tomar três goles d´água e se persignar, porque sem assim falando não dá, não cura, pois veja.
(Estendeu a mão na direção do joelho, cerrou os olhos e com a cabeça perpendicular rezou. Rezou meio contrito, rápido como era o seu jeito de falar).
Pronto, agora sempre tome os goles d´água. Olhe senhor não sou daqui, e sim de Maracanaú, mas dessa região sei de cor como a palma da minha mão. Essa gente toda me conhece e eu conheço ela. E não é sacrifício sempre falar, porque aqui na terra o homem tem seu poder, mas sem aquele lá de cima (tirava o chapéu), não somos nada, pois nEle me seguro e dEle somente temo. Nesse mundo de meu Deus quem não tem no coração o amor, a paz e a caridade de nada tem, mesmo que no cofre e nos bolsos dinheiro não lhe falte. Um dia vai fazer falta nem que seja noutro mundo.
Pois bem, veja senhor o meu corpo que todos pensam que não vale nada. O meu músculo (mostrava o músculo do braço esquerdo) não é um caroço de abacate mas fortaleza, saúde e determinação. Tenho saúde de mil homens e é porque já fiz muita estripulia nessa vida. Bebi demais e também fumei. Tenho essa carteira de cigarros no bolso, mas tem dias que nem me lembro que tenho. Fumo por prazer e não por vício.
E não esqueça você que danço essas danças de hoje: na boquinha da garrafa, a bundinha (e mostrava de novo os tipos de dança, pulando feito um menino, jogando o joelho direito no chão e o esquerdo com o pé apoiado no solo, num pulo como gato).
Não sou um gato e nem tenho sete vidas mas a que tenho dou graças ao lá de cima que me fez viver de novo. Veja senhor esse corte na barriga (levantou a camisa e um rasgo vertical descia de cima a baixo), pois estive quase entregue nos braços da “infeliz”, mas sai dessa e do portão não passei. Tudo dou graças ao lá de cima que sabe que tenho alguma coisa a fazer ainda nesse mundo. E sei bem o que é: levar minha devoção, minhas rezas. Você é de Juazeiro do Padre Cícero? Estive naquele lugar de santo e me espantei com aquela estátua... que coisa enorme, quase nem abarquei o cajado do padre e sequer o chapéu de tão enorme. Também de São Francisco de Assis tenho devoção e acredito piamente nesse seguidor de Nosso Senhor Jesus Cristo...”
O seu Mundinho ainda ia continuar na sua apologia popular, quando o ônibus apontou na curva e quase não deu tempo das despedidas, porém dentro do ônibus rememorei as palavras do personagem para enaltecê-las nessas páginas em branco.

Obs.: imagem ilustrativa: unknownpoets.blogs.sapo.pt

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

AMOR POR UM DIA


De tantas viagens feitas semanalmente, houve uma que para mim foi novidade. Fui fazer um trabalho em Sobral, terra de Renato Aragão e do cantor Belchior, para citar os que acho formidáveis. Uma viagem cansativa, devido o meu curto tempo. Chegar numa segunda-feira, fazer o trabalho durante o dia e voltar no início da noite. Viagem de mais de 1.000 km, ida e vinda.
No ônibus muita gente simples, como eu, e romeiros que iam fazer sua peregrinação em Canindé, e uma pessoa me chamou a atenção, tanto na ida como na volta. Mais precisamente na volta, até porque foi nesse período que descobri sem perguntas e sem abrir sequer a boca, a ida dessa mulher à Sobral.
A viagem foi tranqüila, mas não consigo dormir direito, pois a cada freada brusca imagino coisas terríveis. Não sei por qual razão a gente pensa muita besteira, talvez pelo fato de ficarmos mais experiente ao avançar dos dias e os nervos vão ficando mais aos frangalhos. Muitas vezes vejo crianças nessas viagens e as invejo pela tranqüilidade, pela inocência no seu olhar. Jamais passam pela suas cabeças um desastre, um acidente simples ou fatal. Dessa vez não vou me jogar nas mentes delas porque assim fazendo uma simples crônica semanal como essa não terá espaço de tantas coisas lindas que teria que colocar aqui.
Em Sobral vi que o clima da cidade é muito quente, até porque início de outubro tem essa peculariedade do interior nordestino. Fiz o trabalho, conheci o centro da cidade e até deu tempo assistir a um filme no cinema local. Duas salas de exibição e a película, um suspense, me ganhou a confiança e assisti ao filme sozinho, numa sala que parece ter sido reservada só para mim.
De volta ao ônibus, vejo a mulher do início da viagem. Suas características: jovem, bonita e intranqüila, peculiar de quem é jovem e da condição porque foi até ali, como eu, só que com outro objetivo. O dela, ver o marido. No celular em que recebeu a ligação disse que tinha esquecido o lençol, lembrança devido o frio que fazia no ônibus, antagonicamente ao clima lá fora. Achei interessante a viagem dela em busca de braços e carinho, nem que fosse por um dia. Pergunto a mim mesmo se tinha valido a pena, e me vem à mente a frase imortal do poeta Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena.” Sim, tudo vale a pena para ver a quem ama, nem que seja no fim do mundo, e o que tem numa distante de 1.000 km que separe dois amores? Dizem que a distância separa nos seus dois sentidos, talvez por isso essa busca incansável da esposa para ver o marido, despi-lo em todos os sentidos e ver sua alma, na brancura do dia e na escuridão das horas. Por isso também há aquele gosto saboroso de matar a saudade e o amor ser feito com mais gosto, onde se foge da rotina, do dia a dia desgastante. Rever a pessoa querida depois de muito tempo e se um dia não deu ainda para matar a saudade, pelo menos estreitou com gosto o amor febril. Um dia passa muito rápido, mas se nesse período os dois vivessem intensamente as horas, paulatinamente esvaindo-se pelos dedos, cabelos, suores e janelas, seria um dia que ficaria marcado nas suas vidas e tudo que fosse de mundano, tudo que fosse de tristeza e tudo que fosse pequeno, nada seria mais importante de que os dois corpos num só.Tenho a certeza absoluta de que a viagem de volta, para ela, foi uma das mais significativas, mesmo esquecendo do lençol que lhe tiraria o frio e lhe deixaria a lembrança da fragrância do amor no quadrante do tecido.
Obs.: foto que sugere certa posteridade, como deveria ser um casamento.

sábado, 6 de outubro de 2007

MEMÓRIAS


Volto agora para o interior do ônibus e chama-me a atenção um casal e uma senhora. O casal está junto num lado e do outro, a senhora. Cabelos brancos, traços de quem viveu muito e ali está meio que tranqüila, olhando de vez em quando para o casal. Possivelmente é mãe da mulher, porque numa lógica vista a pelo menos cinco metros de distância, é uma raridade o homem conduzir sua mãe para uma viagem. A esposa sempre tem o poder, e de imediato veio-me à memória a minha mãe. Vi naquela idosa, na poltrona tão perto e ao mesmo tempo tão distante, a imagem idosa da minha genitora, e quando percebi o olhar dela a fitar a “filha” com os olhos de quem busca refúgio, conduzi-me por uma analogia em que foi preciso naquele instante.
Minha mãe há muito que sofre do mal de Alzheimer, acometida devido a uma hereditariedade, que me lembre começou com o meu avô. Interessante que em todas as pessoas com cabelos brancos que me deparo, logo me vem ela.
Ali, então, a senhora ao lado do casal, vejo que há dois mundos: o da velhinha, calada, mas aparentemente ativa, pensativa, conduzida. Religiosamente trago à tona a epístola de São João, no Capítulo 21, versículo 18, “Quando você era moço se aprontava e ia para onde queria. Mas eu afirmo a você que isto é verdade: quando for velho, você estenderá as mãos, alguém vai amarrá-las e o levará para onde você não vai querer ir.”
O da filha, moça, jovem, com muito pra viver, ao lado do amor, está ali, de vez em quando bipartida pela atenção do marido e da mãe. De um lado a memória por findar e por outro uma que teima em paginar histórias e cuidados.
Com meus sentidos mais aguçados, entro nas mentes das duas e traquino nos seus pensamentos numa dimensão de dois mundos, sendo o primeiro da mãe: “Estou aqui, ao que parece sentada numa cadeira ou poltrona, num balançar que enjoa. Não tenho certeza onde estou realmente, mas vejo passar por mim vultos de coisas verdes e de um azulado céu. Apalpo, agora, minhas pernas cobertas por um vestido de chita, e pensando nisso, nunca gostei de vestir esses tipos de tecido. Nunca fui, lembro-me razoavelmente bem, de me pintar, de colocar coisas decorativas nas minhas feições e nem vestidos coloridos, e hoje me põem esse modelo que odeio. Mas não posso nada dizer, porque eles pensam que estou esclerosada e não tenho mais querer. E para não contrariar nada digo. Sigo vestida neste vestido de gente do sítio. Sítio, sítio, não posso esquecer que sou de lá, mas nunca gostei de morar por aquelas bandas, que nem sei para que lado fica. Mas, para onde estou indo, para onde estão me levando nesse chacoalhar que me enerva e me dá enjôo? Olho agora para aquele casal ao meu lado, e arregalo meus olhos para enxergá-los melhor. Tento lembrar deles, e agora me vem uma dúvida: meu filho ou minha filha?”
Mundo 2: “Mamãe não parece muito bem, a cada dia está pior. Espero que essa viagem traga-lhe melhores ares, que se sinta mais reconfortada. Não entendo porque às vezes ela diz coisa com coisa, fica muda, sorrir sozinha. O que se passa na cabeça dela? Talvez muitas coisas que ela mesma nem saiba. Estou preocupada, a sua idade já está avançada. Às vezes sinto que ela me olha assim como se não visse ninguém, que não sabe a quem está olhando. Para ela vir para essa viagem até que não deu trabalho e está ali, se tocando, passando a mão no banco vizinho, olhando para a paisagem com olhar meio que nostálgico. Será se ela está sentindo falta de papai?”
Depois dessa passagem pelos dois mundos totalmente opostos, onde um pensa em não querer nunca o mal do esquecimento e o outro que imagina a mãe naufragada nele, fecho os olhos o restante da viagem. Não me lembro se sonhei, mas senti-me reconfortado nos braços da minha mãe, mesmo ela não sabendo mais quem sou.

sábado, 29 de setembro de 2007

PAISAGEM


Mais um dia, mais uma semana nas viagens em que me envolvo com meu trabalho, com o ônibus e com a paisagem. Paisagem esta já bem conhecida. Mas hoje tenho uma vontade danada de ficar calado, de ficar introspectivo e vislumbrar somente a paisagem, como também da janela tirar fotos. Tenho uma sensibilidade ótica incrível por casas antigas, da mais simples a mais sofisticada. Cada uma que me aparece na beira da estrada ou longínqua, solitária num sopé de serra, à beira de um açude, escondida por frondosas árvores, chamam-me a atenção. Olho e me vêm à mente locais pitorescos, diferentes, simples e que me invadem numa forma de imaginar aquelas pessoas morando ali, sua rotina, seus dias. Muitas vezes vejo gente nas janelas, no sopé da porta, varrendo o terreiro, no oitão. Outras já velhas, sentadas em cadeiras preguiçosas, pitando, esbaforindo ao ar fumaças antigas. Veio-me à mente o poema de Vinícius de Moraes e Chico Buarque: “Gente Humilde”, onde diz:
Tem certos dias/ em que eu penso em minha gente/ e sinto assim/Todo o meu peito se apertar/Porque parece/Que acontece de repente/Feito um desejo de eu viver/Sem me notar/Igual a como/Quando eu passo no subúrbio/Eu muito bem/vindo de trem de algum lugar/e aí me dá/Como uma inveja dessa gente/Que vai em frente/Sem nem ter com quem contar/São casas simples/Com cadeiras na calçada/E na fachada/Escrito em cima que é um lar/Pela varanda/Flores tristes e baldias/Como a alegria/Que não tem onde encostar/E aí me dá uma tristeza/No meu peito/Feito um despeito/De eu não ter como lutar/E eu que não creio/Peço a Deus por minha gente/É gente humilde/Que vontade de chorar.
Como no poema, vejo essas casas humildes, essa gente simples, sentada na varanda, por sob uma latada de palha, esperando a morte, mas antes olhando o mundo da estrada, do movimento, das andorinhas e sentindo o vento nos cabelos.
Bem longe avisto outras casas sumidas e imagino seus habitantes na luta pela sobrevivência. Cá na cidade se tem o ditado de que se precisa matar um leão por dia, e no campo, que bicho se deve lutar para não ser devorado?
Vejo que mesmo assim com humildade e tudo, sorrisos, uma satisfação e “que vão em frente” sempre, comparo ao que disse Euclides da Cunha: “O nordestino acima de tudo é um forte”. Uma fortaleza de fazer inveja, mesmo que nos olhos se marejem lágrimas de dor, ele não desiste nunca.
Voltando ás casas, olho-as todas, e quantas de janelas abertas para o mundo e no avançar do ônibus, ainda enxergo no seu interior, imaginativamente, palpitar de corações. Lembro-me que vi uma criança simples, de pés descalços, uma boneca nos braços, um olhar no mundo à sua frente, e imaginei o futuro dela. Que futuro, para onde iria, os sonhos a realizarem. Vejo agora, também, uma escola no alto. Hora do intervalo, crianças jogando bola,e penso: quantas dessa gente vão dali sair um doutor, um político, um empresário ou mais um nordestino em São Paulo?
Volto os olhos para o interior do veículo e observo que poucas ou nenhuma pessoa têm olhos para essa paisagem. Cansadas?

sábado, 22 de setembro de 2007

MÃE CORUJA


O ônibus toma o asfalto de ida, resfolegando na estrada do algodão com vontade, numa velocidade compatível, e cá dentro estou mais uma vez em busca do meu destino semanal. Ao meu lado, hoje não tem ninguém, ainda, mas à frente vão mãe e filha. Fico calado, meio que sonolento, numa manhã bonita, onde pela janela do veículo se ver uma paisagem bucólica, entre um verde que teima em fincar, malgrado sol escaldante do início de agosto. Entre um olhar na paisagem e um nas pessoas em frente, fico a imaginar quanto essas duas naturezas se assemelham: uma misteriosa pela mata fechada e seus habitantes irracionais, e outra no seu mistério feminino que encanta com suas personalidades irretocáveis.
Detenho-me nas duas e suas conversas insuspeitas. A filha envolta em lençol, devido o frio do ar condicionado, e meio que enjoada. A mãe com ar super preocupada, tenta saber o que é. A filha, sabedora de que a mãe tem aquele estilo exagerado de preocupação, tenta acalmá-la, mas com um gosto de vê-la daquela forma e diz, num tom de meninice – pela aparência ela tem seus 25 anos – que lhe falta o ar. Numa atitude de que o mundo estava para se acabar ou o ônibus por virar, a mãe levanta-se num impulso, diz que vai parar o veículo, que as duas desceriam, que não seguiriam a viagem. Mãos na cabeça, mas antes que ela chegasse à cabine do motorista, a filha chama pela mãe aos sorrisos.
Essas cenas se repetem por dezenas de vezes, e quem já estava enjoando era eu. A mãe naquele estado de misericórdia, apalpando a filha, ajeitando-a nos braços, e me vem à mente, Pietá. Pietá de duas mulheres, uma que chora, outra que rir. Não há piedade nisso, é claro, mas há abuso. Viajo, então, pelo passado de ambas e vejo um cenário de filha com seus dois, três anos. Como seria essa cena? O ônibus certamente não passaria da primeira curva e o mundo estaria em pavorosa. A mãe com a filha nos braços correria pelo corredor feito louca e os passageiros em olhares de espantos, ficariam embasbacados e sem ação.
Volto da minha fértil imaginação e sorrio sozinho. A mãe olha para mim como se adivinhasse meu sorriso e exclamou, não para mim, mas para ela mesma: “o que uma festa não faz, bebeu demais.” A filha estava de ressaca e sentia na cabeça e no corpo os maltratos da noite sem dormir e ali, bem cedo da manhã, jogava na cara da mãe o seu enjôo ainda que no balanço da viagem.
Volto à minha imaginação: noite de festa, de calores, de abraços e de amor. Viagem materna, de suores e de horror. Isso para a mãe porque a filha gozava da situação em ver sua companheira de viagem assim, envolvida por uma preocupação de mãe coruja que não deixa seu filhote sentir uma dor: olhos redondos e sentidos aguçados. Mas para nós que estamos assistindo aquela agonia em família não tem como escapar a um comentário lógico: o que uma mãe não faz por um filho ou filha, até se passar por ridícula e se deixar maltratar.
A “criança” dormiu e eu senti-me aliviado, tranqüilo o restante da viagem.