domingo, 22 de março de 2009

UM OLHO, OUTRO OLHO


Estive ausente, estive longe, estive nulo, mas não morto e nem podre e nem frívolo. Estive ofuscado, mas com brilho. Estive lógico, mas sem tempo, ou o tempo estava sem mim? Não sei, só sei que cá não estive, ou talvez sim, lendo e relendo o que escrevi. Vale a pena, sim, retomar, porque se poucos me lêem, poucos são muitos nesse universo de carne e ossos conturbados, soltos a léguas e próximos. É bem verdade que se precisa de paz, de espaço, de ciência, de tato, de gosto, de tantas coisas. Ora, se ao meu lado a televisão grita impropérios por conta de assaltos, de escândalos, de enchentes e de prantos, quem sou eu para pensar e dizer que “não estou nem aí?” Estou sim... Estamos!
Mas não vamos longe, seguimos de passos curtos, pé ante pé. Isso para não acordar os desavisados, caso haja por aí tantos. Por isso que nesse texto semi-lógico, vou tentar usar o máximo para poetizar o momento e remexer com o que está, agora, nesse período de festejos em Juazeiro do Norte. Primeiro um poema, para depois prosear sobre o nosso Patriarca. Dois textos independentes, mas como os poetas que lêem, os escritores que auscultam podem até associá-los: coisa de doido.
Espere um pouco...
Um olho, outro olho

Se um tem tanto brilho,
O outro ofusca, mas acompanha com esmero;
Se um é aquele que espero,
O outro não se tornou tão frívolo.

Um tem a diferença mais marcante,
Outro não acompanha tão bem;
Aquele tem o jeito de um amante,
Este não se compara a ninguém.

São dois, claro, num rosto oblíquo,
Mas não são iguais assim tanto;
Ambos têm diferenças lógicas,
Pois se nota logo num espanto.

Se um é libidinoso e passivo e pronto,
O outro tem brilho até demais;
Se um é semelhante a lascivo e santo,
O outro, pasmem, é o diabo por trás.

Mas ambos riem, choram, a tudo enxergam
No mesmo campo facial e amplo;
São dois diferentes olhos que se interam
Um e outro em vários ângulos.

Pois é, por vários ângulos se ver tudo ou quase tudo ou quase nada. Se o poema acima se fala de olhos, também pode falar de observações, de analogias, de simetria... Ah! Que versejem como quiser. Mas lhes pergunto: Que ângulos são vistos a figura do Padre Cícero? Com um olho, outro olho, dois, um, vários, milhões? Aposto que são vistos assim: menino, homem, padre, missionário, vidente, realista, intelectual, messiânico, idolatrado, empreendedor, naturalista, amigo, da família, bem feitor, político, embusteiro, santo. Quantos adjetivos, quantas maledicências, quantos pormenores, quantos mistérios. Quem se atreve, dentre esses detalhes, escolher um ou outros para bradar a quatro ventos a bandeira escolhida? Veja bem que muitos assim o fazem, mas por uma causa própria, desejada, afogueada por uma fé camuflada. Fé no dinheiro, no sucesso do negócio, no mau olhado, porque já se sabe: Se em certas terras o que se planta, nasce, aqui em Juazeiro o que se implanta, cresce. Por que?
Teria que responder àqueles adjetivos que se perfilam sobre o Padre Cícero e passaríamos horas. Alguma dúvida?
Há alguém que perdurou seu nome por mais de um século quanto à sua vida, à sua luta e à sua particular santidade? Não há uma igualdade quanto a isso, por mais que vasculhemos a história do Brasil e do Mundo, e por mais que queiramos assemelhar, encontramos poucos, assim, nessa vertente, nesses ângulos.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

O PASSADO NUNCA MAIS


“No presente a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa que não nos serve mais

Como Poe, poeta louco americano,
Eu pergunto ao passarinho: "Blackbird, o que se faz?"
Raven never raven never raven
Blackbird me responde:
Tudo já ficou atrás
Raven never raven never raven
Assum-preto me responde
O passado nunca mais.”
Velha Roupa Colorida, Belchior

2008, Natal, final de ano e uma recordação. De tantas idas para o centro da cidade, muitas vezes evito passar pela Rua São José, entre as da Carlos Gomes e a Padre Pedro Ribeiro. Nesse trecho está, ainda, a casa 1040, com a sua segunda fachada. Foi lá onde nasci, juntamente com meus onze irmãos, mas somente quatro vivos. E, então, não podendo evitar, passei por lá esses dias e a porta estava aberta, como à minha espera, à minha passagem. Parei o carro quase que automaticamente e me veio a idéia de tirar umas fotos, sabe-se lá se os novos donos não resolvam por abaixo o que ainda resta de lembranças? Nostalgicamente perfilei-me frente a ela e aos borbotões vieram as lembranças mais que longínquas e fincadas na minha mente. Primeiro a de meu avô, pai de meu pai, numa lembrança apagada, sofrível, vendo-o doente, mas sem a presença do rosto e nunca cheguei a vê-lo, pois sequer havia uma foto dele. Depois, as dos vós maternos, que alias viviam num casarão próximo, o de nº 1085. Lembrei-me bem das janelas e portas enormes, uma calçada assoberbada e única do lugar. O pai de minha mãe lhe deu a da 1040 como presente de casamento. Mestre Duda, senhor dos sapateiros, grande mestre das alpargatas, chinelos de couro, tamancos. Se naquela época media-se o homem pela posse de casas e terrenos, ele era um dos mais opulentos. Quarteirões e mais quarteirões. Os seus produtos eram feitos com qualidade, com maestria, por isso a alcunha de Mestre Duda. Naquela época tudo o que se fazia era por amor à profissão. Analfabeto, lembrei-me que lhe ensinei as primeiras letras do alfabeto, ia deixar-lhe o chá no “capim”, lugar aonde ele ia todas as manhãs ver suas terras, um local reservado a uma lavanderia, com um enorme cacimbão, em que as mulheres iam lavar roupas. Não me lembro se ele aprendeu, porque logo o mal de Alzheimer paginou-lhe em branco as suas memórias. Já era tarde.
Voltando à casa inicial, vejo meu pai e minha mãe. Vejo Joaquim e Dezinha passando-nos lições de vida, orando fervorosamente por nós e conosco. Tudo que envolvia os dois era equilibrado pela fé nos santos e no Deus misericordioso. Vi um tempo de sacrifícios, da água que ainda não era encanada, da fachada da casa que era de taipa, das orações de joelhos de toda as noites, da espera agoniada pelas sextas-feiras ao pé do rádio à válvulas, para ouvir “A hora do mistério”, programa da Rádio Progresso. Um programa de contos misteriosos, assombrados. A partir dessa época ficou em minha mente o gosto pelos contos, pelas narrativas, pela oralidade popular. Vi uma época de vacas magras, de meu pai saindo da Indústria de Rádio (eletromáquinas), sendo o último de uma indústria falida. Vi-o consertando rádios e televisores, recondicionando motores, sendo ministro da Eucaristia, da Ordem Terceira Franciscana, a morrer de um infarto do miocárdio. Junto com ele e inseparável, minha mãe, professora de corte e costura, dona de casa de mãos fortes, de uma presença de espírito formidável, embora com um gênio desmedido. Vi-a ensinando cartas de ABC e Catecismo a milhares de crianças durante toda a sua vida. Via-a sentada na porta da cozinha cozendo, lendo orações, tricoteando, nos ensinando pontos de tricô, a cantar benditos, a afagar os gatos no colo, a dar ordens, a nos ver da cabeça aos pés, a nos vestir depois do banho e deixar-nos na calçada para ver o mundo; vi nossa mãe a clamar para nosso pai a nos bater por uma peraltice qualquer. Ouvia-a falar frases que só a ela era peculiar, ditados vários que um dia irei apregoá-los em meus escritos: “só que ser os tamancos de Roque”, “um calor dos seiscentos cravinotes”, “tai, mané, teu tio?”, “não tem nem no cu o que o canário coma”, “enxerido sem lenço”, e vários outros. Vi-a, aos poucos os seus cabelos embranquecendo, suas rugas aumentando e a memória se perdendo nos labirintos do cérebro. Hoje vive em Aurora, sem memória, sem porvir.
Olhando rapidamente para a rua, agora estendida e ladeadas de casas bonitas e atualizadas, enxerguei o lugar da casa de “D. Maria do Caréu”, uma mulher que tão bem sabia costurar, e que tinha no gogó um enorme caroço, que muitas vezes quando ela falava com sua voz rouca, me dava sustos. Não sabia que a mesma tinha uma doença já avançada: a da tireóide. Indo mais devagar, vejo a esquina, onde no bar dois homens se encontravam diariamente para bebidas e prazeres: Marcondes e Tico Bacorim. Bebiam pelo prazer, e sempre estavam arrodeados de meninos e gente simples. Pagavam bombons, guloseimas. Um dia, um homem comeu duas barras de doce de goiaba em poucos segundos, e isso fez com que os dois, divertindo-se com as bebidas viram ali uma forma de deliciar-se com as cervejas, tanto quanto pelo teatro: pagavam para rir e divertir-se. Inventaram corridas, competições entre os meninos. Rabiscavam com carvão os números de cada atleta, e aquele que chegasse primeiro a dar a volta no quarteirão ganhava uns trocados. Meu irmão Adailton Mendes, ganhava todas as corridas e dava o dinheiro à nossa mãe. Também ele plantava bananeiras, a dar voltas no quarteirão sem pôr os pés no chão. O passado nunca mais.
Tentei, quase que em vão, apesar do resguardo no canto da memória de tudo isso, ver a nós todos, irmãos e família. A casa arqueja, somente com a fachada e os escombros. Um cenário que se avulta aos meus olhos e me transporta para longe. O passado nunca mais voltará, é triste pensar assim, mas a verdade me bate nos sentidos com um sopro incomum. Qual o sentimento, ao ver o lugar, o chão, as paredes (o teto não existe mais), os fantasmas ziguezaguearem pelos escombros, pisarem um solo “sagrado” para nós os Franças e os Mendes. Fantasmas que me suplicam que jamais os esqueçam, apesar dos anos, da lida, de outras vidas alheias e que nos faz naufragar no tempo e no espaço afastados dessas lembranças que lacrimejam os olhos e a alma.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

ENCANTADO




Seguindo pelo rumo do sertão, ladeado pelos farfalhar das asas da arribação e do carcará, esta semana fui a estes sabores. Ao longo desta crônica serei enfático, repetitivo, porque encantado fiquei com o lugar. Minhas retinas, ainda não tão fatigadas, se encheram de pedras, de monólitos e de um fragor de cinza que muito delas não há de saírem. Também convoco minh´alma para saborear desse enlevo e com a minha carcaça e todos os outros sentidos também se deliciarem. Se o mar é tão maravilhoso aos olhos, essa paisagem é encantador a eles.
Na tentativa de entrevistar pessoas do setor de saúde, em Quixeramobim, fiquei com gosto na boca e de inveja por não ter que todos os dias por essa paisagem passar. Tudo que envolve os monólitos, envolve também o lugar, as gentes, os bichos, os pássaros, a imensidão do céu.
Encantado é um lugar petrificadamente encantado. Se há lugar semelhante eu não conheço. Passamos no roçar das rochas únicas, indelicadamente imóveis, fixamente invariáveis e apaixonadamente soberbas. Os caminhos que levam o menor dos seres àquele lugar são tortuosos, porém majestosos. Caminhos onde os galhos secos inclinam-se sobre as pessoas na iminência de abraçá-las, de segurá-las e dizer-lhes: bem-vindos. São galhos, pela época, que lógico ficarão verdes, que parecerem se mover, como aqueles filmes de terror, de braços esguios, balançando-se na passagem e quase a nos seguir. Não tem cores, como no arco-íris, mas tem cor única e que nos diz de prontidão quão maravilhoso é tudo ao redor. Fala-nos a cada curva, a cada roçar de galhos, e na proporção que as rochas se aproximam, lentamente, elas vão nos dando a certeza plena e absoluta de que somos seres pequenos e indefesos. A monstruosidade das rochas nos fala que devemos ser humildes e coerentes conosco e com quem nos cercam. Diz-nos que não precisamos e nem devemos fechar os olhos ao cenário incólume da sua formação e nem passarmos despercebidos à grandiosidade da natureza. Ah! Mas como passar por ali sem avistar tamanha grandeza, mesmo os cegos enxergariam, não a luminosidade, mas o sabor dos ventos temperados vindo delas.
Encantado, quem pôs esse nome ao lugar foi feliz em assim fazê-lo. Como foi interessante a idéia de se usar uma das dezenas de rochas, como um abrigo para a reunião de pessoas em torno de uma bebida e de encontros. Usou-se as duas naturezas: a da inércia dos monólitos e a vanguarda da mente humana. Não colocaria aqui a questão ecológica, mas a preservação do lugar, sim.
Encantado fiquei e tentarei sentir mais vezes, mesmo nessa minha crônica, como nas imagens ou de longe, o sabor de que as rochas não são apenas rochas, mas uma delicadeza de um dedo indubitavelmente poderoso que ali pôs em cada palmo, em cada molde.
Que o povo do lugar e aqueles que ali visitam e passam e ficam, levem consigo a certeza de que Deus existe e nós temos apenas que reverenciar e sentir de perto a sua imensa grandeza.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

FINADOS




Se há uma cidade peculiar para FINADOS, chama-se Juazeiro do Norte, terra do Padre Cícero e de tantos outros cíceros atuais e vindouros. O sol de início de novembro castiga todos os vivos e esquece todos os mortos. Os vivos que peregrinam pelas terras santas, agora refletem na alma o gosto agridoce na reverência aos seus mortos, aos seus entes queridos, ao passado imorredouro.
Que sol é esse que castiga, que maltrata, que faz com que os vivos busquem água, como se estivéssemos num deserto, enquanto que sob chapéus de palhas e pelos dedos que debulham os rosários se tem a impressão de que o fim do mundo está próximo? São nessas horas que se passa pelas nossas cabeças a idéia de fim de mundo, ou da certeza plena que outros Finados virão e que faremos parte de uma nostalgia comemorativa.
Sempre nessa época vejo a cara da nossa cidade com tantas outras que vêm em busca da “salvação”, da terra prometida em tempos de se clamar pelos que já se foram, como se nós nunca lá chegássemos. Vejo, pela periferia dos olhos um cenário de sol, castigo e muitos benditos. Mas, incrivelmente, vejo um amontoado de comércio que busca sobrevivência nas lágrimas dos outros. São miçangas, rosários, santos, redes, correntes, indumentárias, tudo que leva a crer que mortos nenhuns se beneficiariam com tais comercializações. E onde se encontra a verdadeira devoção pelos mortos?
Negócios à parte, é um mar de gente vindo de todo o Nordeste, em todos os veículos imagináveis, confortáveis e desconfortáveis. São cabeças e sentenças que pisoteiam o chão do Cariri numa busca incessante da redenção. Vendo, assim do alto, não se distingue quem é quem na multidão, mas se sabe que o romeiro tem sua peculiaridade: os trajes, os olhares de ansiedade, os gestos, a fila indiana. Sabemos o que ele busca, e a temeridade que se tem, é que talvez custe ainda em encontrar. Os tempos mudaram, os ares são outros, a cidade é a mesma, mas as pessoas mergulharam num mar de vanguarda que o sacro anda ao longe. Salva-se, ainda, o pau-de-arara, aquele carro antigo e suas carrancas, e as indumentárias religiosas pintalgadas aqui e ali. Salva-se a fé, embora ainda encontrem uns benditos perdidos entre uma miçanga e um copo d´água. Falta nesse tempo de finados um quê de chamar a atenção de quem morreu e deixou seu marco fincado nessa terra de homens, santos e pecadores.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

UM HOMEM, UMA TORRE E UMA BICICLETA


Uma torre, um homem desesperado, uma multidão de gente ansiosa para o desfecho final.
O tempo era a tarde, de calor sufocante, a rua mais movimentada da cidade, a torre de telecomunicação, o homem e uma bicicleta. Tudo comum, num tempo comum, onde os carros que passavam apenas deixavam ar quente, asfalto soltando poeira e fragmentos de pneus. Transeuntes que iam e vinham num percurso já há muito conhecido e necessário, numa busca incessante pelo comércio, pela necessidade diária. Os vizinhos são quase que totalmente consultórios médicos, com quase todas as especialidades existentes na área de medicina.
A rua enorme, que corta praticamente toda a cidade. Uma rua que nasceu grande, onde por ela deságuam todos os veículos, todas as pessoas, todos os movimentos, todas as passeatas, todos os políticos, todas as reivindicações, todos os monóxidos de carbono. Por ela se vai, apenas se vai, como estava indo aquele homem do começo da narrativa, com sua fragilidade mental, seus problemas, sua vontade contida e suas preocupações.
Num gesto lento, mas firme, sobe na vida através da escada que dá acesso à torre, aos poucos, lento, resoluto. O que passa na sua cabeça, senão problemas, fraqueza de espírito, resolução desenfreada, malquerença, idiossincrasia? Só ele sabe, e sobe, disposto a dar seu grito de liberdade ou de chamada de atenção, sem medo, sem nada amais. E chama a atenção sim, em pleno pulmão da cidade de Juazeiro do Norte, numa tarde de outubro, de calor sufocante, de quase fim de ano.
Num instante, se interdita a rua, o clima arrulha-se e ninguém mais quer trabalhar. Todos os olhos se voltam para cima, e quem chega aos atropelos aos poucos fica sabendo, e se compenetram ou se riem, acha-se engraçado. Ruas paralelas tornam-se importantes, moços e moças riem, senhores e senhoras se perguntam, indagam aos que passam, pasmam-se. Máquinas fotográficas, câmaras de televisão, reportagens, sirenes do corpo de bombeiro, polícias, olhos e mais olhos, o homem quer se atirar da torre.
O mar de gente se revolta, se renova, se impregna no asfalto, e os olhos não saem do alto. Pula ou não pula, muitos clamam, muitos querem ver o trágico, outros acham terrível a cena, os carros são desviados, as topics enfurecidas, perda de tempo e de dinheiro por causa de um “maluco”.
O corpo de bombeiro imita o homem, sobe resoluto, firme, mas com outro propósito: tentar mergulhar na mente do pseudo-suicida para aliviar a dor e fazê-lo desistir do intento. Enquanto isso, lá embaixo, na negritude do asfalto e das cabeças das pessoas, o cenário está formado: um homem que ameaça suicidar-se, bombeiros que apelam para a vida, um povo dividido entre “pula, pula e vaias” e outros com corações contritos. O pano de fundo: uma rua que já desfilaram tantas alegrias, tantos sonhos, tantas vidas, casas antigas e renovadas, árvores simbólicas e o pior, um grito de suicídio coletivo, numa enxurrada de vontades revoltantes.
No final das contas, o homem não pulou, para alívio de muitos, e o cenário não se avermelhou do sangue que seria jorrado na história da cidade e nas mentes dos ávidos. Faltou um complemento para se fechar a cena, pontilhada nas primeiras linhas acima: a bicicleta. O homem teve a precaução, antes de subir à torre, de amarrar a bicicleta no pé da mesma, anunciando que não iria pular.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

OUTUBRO


Tanta gente no meu rumo
Mas eu sempre vou só
Nessa terra desse jeito
Já não sei viver
Deixo tudo deixo nada
Só do tempo eu não posso me livrar
E ele corre para ter meu dia de morrer
Mas se eu tiro do lamento um novo canto
Outra vida vai nascer
Vou achar um novo amor
Vou morrer só quando for
E jogar no meu braço no mundo
Fazer meu outubro de homem
Matar com amor essa dor
Vou
Fazer desse chão minha vida
Meu peito é que era deserto
O mundo já era assim
Tanta gente no meu rumo
Já não sei viver só
Foi um dia e é sem jeito
Que eu vou contar
Certa moça me falando alegria
De repente ressurgiu
Minha história está contada
Vou me despedir.
Outubro, Milton Nascimento

Estou sob uma frondosa árvore num lugar neutro, no meio do nada, a espera do ônibus. O lugarejo é Mineirolândia, município da cidade de Pedra Branca/CE. O ônibus que espero não é aquele costumeiro.
Meio dia e meia, sol escaldante de início de Outubro, uma solidão, mil pensamentos. Sentado num banco de praça, o suor a brilhar na testa, os olhos a amiudar-se pela impetuosidade da luz solar. E dali, avisto um comércio e na porta dele uma mulher. Meu coração não bate forte, mas meus lábios se abrem num sorriso que só eles sabem por que. Cinco anos se passaram ou talvez mais, muito mais. Do lugar não saio, não tenho coragem por várias razões: uma delas a minha atual situação e outra o sol não deixa: o calor insuportável. Penso como a vida é engraçada, como o mundo é pequeno, como tudo isso se mostra para o ser humano da forma mais simples, incontestável.
A moça não me vê, e de longe tento enxergar no seu semblante, como num zoom óptico, nas lâminas dos seus olhos o meu, ou o nosso passado. Revê-la não me traz exuberância de sentidos, mas a sensação pequena de que o ser humano não é nada, visto que o tempo é tudo, pois brinca com todos, faz loucura, e ri, ri muito de todos nós.
Certo dia, a espera desse mesmo ônibus, nesse tempo que já expus, ouvi alguém me chamar. Quando a vi, ela sorriu e perguntou-me se eu estava perdido. Certamente estava, de qualquer forma, embora soubesse do lugar.
Matamos a saudade, falamos do nosso passado, dos dias que nos conhecemos, do amor fortuito que fizemos por uma única vez, e em condições atropeladas. Rimos de nós mesmos, do encontro e desencontro, para chegarmos ali, depois de muito tempo, perdidos. Ela tinha me dito que saíra da cidade natal por outras questões, ex-marido e ali tinha encontrado um novo amor. Olhando ao redor, lembrei-me da época, encontrar um novo amor naquele lugar poderia ser um marco triunfante. Mas, encontra-se um novo amor em qualquer lugar, até mesmo num velório (não com o morto, claro), mas quem sabe com o viúvo ou a viúva. Despedimo-nos com a nossa história: a dela que se cruzou com a minha em poucos dias e a minha que se cruzou com a dela na mesma proporção.
Agora ali, vendo-a de longe, recordo tudo isso. Talvez ela estivesse casada com o amor da sua vida, talvez, sem muitas mudanças. E quanto a mim, bom, muita coisa mudou.
Vendo a música de Milton Nascimento acima, OUTUBRO: bela canção, em alguns trechos caem bem para mim, ou talvez caiam bem para ela e, talvez, muito mais para vocês.
O ônibus aponta na curva.

sábado, 13 de setembro de 2008

MALEDICÊNCIA, NECESSIDADE OU NÃO


“Antes de falar – manda o bom senso – tende o cuidado de examinar se aquilo que ides dizer satisfaz a estes três requisitos: ser verdadeiro, agradável e animador; do contrário, deixai-vos ficar calado.”
Na última crônica, falei sobre “sueño com serpientes”, e por incrível que pareça, estava sentindo algo no ar. E agora, nessa semana, observo um título um pouco mais interrogativo e coberto de uma camada de pessimismo que sei onde foi parar. Nessas linhas emparelhadas e nas entrelinhas deverá haver uma dor pungente, entrecortada por um gosto amargo na boca, pensamentos tempestuosos que não conseguem deixar de vir à tona, muitas e muitas vezes.
Devo, é bem verdade, deixar no ar várias perguntas, talvez sem respostas, ou com elas de bate pronto, mas sem deixar cair a sutileza. Quem não é maledicente? Eu, que vos escrevo, que busco entre as palavras saídas para o meu desabafo, a saber se você gosta ou não do que escrevo, do que tento passar como mensagem, quando você ainda está no trabalho, e na folga das horas, entra no blog para saber algo mais? Você que sente no companheiro de trabalho que ele(a) lhe olha com outros olhos, não os de paixão, mas os de inveja, de raiva? Você que tem um(a) companheira(a) que nunca desconfiaria de nada, de que a pessoa nunca lhe trairia, seja de que maneira for? Você que se olha no espelho por mais de uma hora, com a tenaz desconfiança de que o vestido não lhe cai bem, a saia, o short, os óculos, os cílios, o batom ou até mesmo o perfume? Você que enxerga no próximo uma coisinha a mais em que ele deve estar mentindo, se saindo com palavras vazias, evasivas, sem fortaleza, sem vida? Quem não é maledicente quando o que nos aparece deixa rastros de coisas que nos faz desconfiar?
Somos maledicentes por estas e outras tantas razões. Querem ver, vejamos: somos, primeiramente egoístas e prontos para viver de uma forma individual, e que estamos em família por pura necessidade, e tantas vezes queremos ficar a sós. Às vezes temos medo da solidão por ela ter uma malícia que nos come sorrateiramente, pois ela carrega no todo um invisível dragão; temos a pura necessidade de estarmos em companhia de alguém por uma questão de sobrevivência (muitos não conseguem sobreviver sem uma companhia, por mais que ela lhe diga tantas vezes “não”); a pura maledicência está na mulher por ela desconfiar até no que veste, daí a razão de uma hora na frente do espelho para apenas colocar um vestido e uma pulseira (tudo tem que combinar), e a combinação das mulheres tem que ser em tudo.
Somos reais maliciosos, porque a malícia nos chama, custe o que custar, não importa o dia e nem a hora, mas ela sempre está nos nossos calcanhares.
No dia a dia, desconfiamos de tudo e até da própria desconfiança. Se nos passam um troco a mais ou a menos; se alguém lhe diz obrigado, ou lhe joga um sorriso, ou lhe chama de querido. Está por trás de tudo a malícia dos dias de hoje, porque o ser humano é um bicho de sete cabeças, um lunático, de outro mundo e coberto de indecisões, de malquerença, de desrespeito, de covardia. E esses problemas não estão longe de nós, mas bem perto, muito perto.
Mas, infelizmente, temos que viver com tudo isso, até não sei quando. Temos que matar um leão por dia ou toda uma selva selvagem para chegarmos doutro lado são e salvos, com ou sem maledicência, imaculados ou pecaminosos, anjos ou demônios.
Gostaria, nessa semana, passar um adocicado gosto nas palavras, mas não dá, não estou com jeito para isso, porque minh´alma tenta voltar ao seu sonho de ouro de uma forma ou de outra, pois o meu corpo a sacode hora a hora para alertá-la de que o perigo ainda não passou e o mal pode estar por vir, a galopar nas asas da graúna, preta de maledicência.